
A Pintura Mitológica na Arte Contemporânea
A arte contemporânea declarou o mito morto. O conceito, o gesto, a ironia, a crítica institucional ocuparam o lugar que pertencia às figuras sagradas, às bestas, aos heróis e aos guardiões. E no entanto, o mito persiste — não como tema acadêmico, mas como necessidade interior da imagem.
O Mito como Forma de Conhecimento
O mito não é uma história inventada para explicar o que a ciência ainda não compreendia. É uma estrutura de pensamento — uma forma de organizar a experiência que opera através de imagens em vez de conceitos. Quando pinto Sansão encontrando o leão, não estou ilustrando uma passagem bíblica. Estou acessando uma estrutura arquetípica: o encontro entre o humano e a força selvagem, entre a civilização e o que a precede e a excede.
Essa forma de conhecimento não se tornou obsoleta. Tornou-se apenas menos visível, expulsa dos espaços de prestígio da arte contemporânea para os territórios marginais da ilustração, da fantasia, do popular. Meu trabalho tenta reintroduzi-la no centro — não como citação pós-moderna, mas como prática viva.
Além da Ironia
O grande obstáculo para a pintura mitológica hoje é a ironia. A arte contemporânea nos ensinou a desconfiar de toda grandiosidade, de toda narrativa, de todo sagrado. E essa desconfiança foi produtiva — libertou-nos de muitas ilusões. Mas também nos privou de algo essencial: a capacidade de olhar para uma imagem com seriedade plena, sem a proteção do distanciamento irônico.
Minhas pinturas não são irônicas. Não pedem desculpas por serem mitológicas. Não se protegem com aspas visuais. Apresentam guardiões, santos, bestas e encontros sagrados com a mesma gravidade com que a arte sempre os apresentou — antes que a modernidade decidisse que isso era ingênuo.
O Futuro do Mito na Pintura
Acredito que a pintura mitológica está no início de um retorno — não como revivalismo, mas como necessidade. Depois de décadas de conceitualismo e desmaterialização, há uma fome crescente por imagens que contenham mundos, que tenham peso, que exijam tempo. O mito oferece exatamente isso: densidade, profundidade, a sensação de que por trás de cada imagem há um sistema inteiro de significados que nunca se esgota.
