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Criaturas e Bestas: Pintando o Animal Sagrado
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Criaturas e Bestas: Pintando o Animal Sagrado

Sempre pintei animais. Não como ilustração da natureza, não como metáforas do humano, mas como seres que possuem algo que nós perdemos: uma presença integral, sem divisão entre o corpo e o espírito, entre o instinto e a graça.

O Animal como Figura Sagrada

Nas tradições antigas, o animal nunca foi meramente animal. O touro de Creta, a serpente de Quetzalcóatl, o cordeiro bíblico, a águia imperial — todos habitavam uma zona onde o natural e o sagrado ainda não haviam se separado. Minhas criaturas vivem nessa mesma zona. O Búfalo Rosa não é um búfalo que pintei de rosa. É uma presença mítica que escolheu a forma de búfalo.

O Pombo Chefe não é uma piada visual. É um galo que ascendeu à soberania por pura dignidade de postura. Os animais nas minhas pinturas não servem ao humano; eles existem ao lado dele, com a mesma gravidade, a mesma complexidade interior.

Ternura e Autoridade

O que me interessa especialmente é a coexistência de ternura e autoridade nos animais. Um lobo pode ser ao mesmo tempo ameaça e companheiro. Um gato pode observar uma cena bíblica com indiferença absoluta e, nessa indiferença, tornar-se a presença mais real da composição.

Os encontros entre crianças e animais nas minhas obras — a menina entre os felinos, a criança ao lado do lobo — não são cenas de perigo nem de domesticação. São limiares: momentos em que o humano e o animal se reconhecem mutuamente sem palavras, sem hierarquia, sem medo.

Pintar o Que Não Pode Ser Domesticado

A domesticação da imagem animal é um dos empobrecimentos da cultura contemporânea. Animais fofos, animais engraçados, animais sentimentais — perdemos a capacidade de olhar para um animal e sentir o mistério. Minhas bestas tentam recuperar esse mistério. Não por serem monstruosas, mas por serem inteiras — inteiras de um modo que nós, humanos fragmentados, já não conseguimos ser.

Porfirii Fedorin
Porfirii Fedorin
Visual Artist · Buenos Aires