
Paisagens de Buenos Aires: Pintando a Cidade
Buenos Aires não é uma cidade que se deixa pintar facilmente. Sua luz é dura e generosa ao mesmo tempo, seus espaços verdes possuem uma intensidade cromática quase tropical, e seu rio — que não é propriamente um rio, mas um mar cor de prata — resiste a qualquer simplificação pictórica.
A Luz Como Matéria
A luz de Buenos Aires é horizontal. Diferente da luz europeia, que cai e esculpe, a luz portenha se estende, invade, satura. Os parques ao meio-dia não têm sombras delicadas; têm contrastes violentos entre zonas de sol e zonas de escuridão vegetal profunda. Pintar essa luz exige uma matéria pictórica que tenha a mesma densidade: empasto espesso, pinceladas que constroem volume, cores que brigam entre si como o próprio sol briga com as copas das árvores.
Quando pintei a Plaza Sicilia, os troncos eram azuis. Não azuis por decisão estética, mas azuis porque, contra a terra vermelha e sob aquela luz particular, era isso que eles eram. A cor verdadeira do mundo raramente é a que esperamos.
A Costa e o Mar
A Reserva Ecológica de Buenos Aires é um dos poucos lugares na cidade onde se pode ver o horizonte. A praia ali não é pitoresca — é áspera, ventosa, com uma água cinza-esverdeada que parece ter peso próprio. Pintá-la me ensinou a tratar a paisagem não como cenário, mas como presença.
O mar de Buenos Aires é denso. Ele não reflete a luz como o Mediterrâneo; absorve-a, mistura-a com o sedimento do Prata, devolve-a transformada. A tinta a óleo é o único meio que consigo imaginar para capturar essa qualidade de densidade aquática.
Paisagem e Mitologia
Há quem separe meu trabalho em duas categorias: as obras mitológicas e as paisagens. Para mim, essa divisão não existe. As paisagens de Buenos Aires são tão mitológicas quanto qualquer santo ou guardião. Cada parque contém sua própria cosmogonia de cor. Cada praia é um limiar entre mundos. Pintar a cidade é pintá-la como ela realmente é: não um cenário urbano, mas um organismo vivo com sua própria vida interior.
